quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Carlos Gurgel: “Minha obra está concluída na AEB”

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“Minha obra está concluída na AEB”

O engenheiro Carlos Gurgel, diretor de Satélites, retornará para a Universidade de Brasília e faz um balanço de sua atuação na Diretoria de Satélites da Agência Espacial

André M. Mileski

O engenheiro mecânico Carlos Alberto Gurgel Veras, diretor de Satélites, Aplicações e Desenvolvimento da Agência Espacial Brasileira (AEB) desde setembro de 2012 deixará a agência no início de 2017. Com o intuito de apresentar um balanço de sua gestão, marcada por importantes avanços na área educacional, o dirigente conversou no início de dezembro com a reportagem de Tecnologia & Defesa.

“Minha obra está concluída na Agência”, diz Gurgel, que no primeiro trimestre de 2017 retornará à Universidade de Brasília (UnB), onde é docente. “Continuarei colaborando com o Programa Espacial por meio do curso de Engenharia Aeroespacial”, referindo-se à graduação oferecida pela universidade, hoje uma referência em formação de recursos humanos para o Programa Espacial.

Gurgel divide suas realizações na AEB em duas vertentes principais, uma tecnológica e outra educacional. No campo tecnológico, uma das mais importantes envolve a missão SABIA-MAR, um projeto de satélite de observação em conjunto com a Argentina, com a definição e conclusão da Fase A, de planejamento da missão, que contou com significativo envolvimento dos usuários dos dados que serão futuramente gerados pelo satélite.

Finalizada em dezembro de 2013, a Fase A foi concluída no prazo de 12 meses, representando a retomada do projeto binacional. “Envolvemos os usuários, as partes interessadas, e realizamos workshops no Brasil e na Argentina com a indústria e usuários.” A etapa seguinte se deu com a Fase B, que envolve maior detalhamento e a revisão preliminar. “Desengavetamos um projeto, e no final conseguimos momentum para que a missão siga de forma mais organizada.”

No campo educacional, por assim dizer, a gestão de Gurgel significou o início de um acompanhamento mais intenso por parte da AEB nas ações essenciais para a formação de recursos humanos e massa crítica para o desenvolvimento das atividades espaciais. “[Houve] uma mudança de paradigma, pois introduzimos o conceito de que a Agência é parceira, e não apenas financiadora [dos projetos].”

Na prática, a AEB passou a assumir um controle mais técnico das missões, convidando especialistas para a avaliação das iniciativas coordenadas pela AEB com caráter mais educacional e de formação de recursos humanos, como as missões de pequenos satélites da modalidade cubesat. Dentre os convidados, professores da Universidade La Sapienza, de Roma, e Jordi Puig-Suari, da Universidade Politécnica da Califórnia, apontado como um dos maiores especialistas do mundo em cubesats.

Os professores convidados avaliaram os projetos nacionais do tipo tendo, ao final, apresentado um relatório com sugestões para aprimoramentos. Um caso citado por Gurgel foi o da missão ITASAT, do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), considerada extremamente complexa para os meios até então disponíveis para o ITA – embora muito diferentes em termos de massa, do ponto de vista de sistemas o ITASAT em si não é muito diferente da Plataforma Multimissão (PMM). desenvolvida pela indústria e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Após os apontamentos, houve uma reunião entre a AEB e o ITA para a reorganização da missão, definindose uma maior destinação de recursos financeiros e orçamentários. O cubesat está pronto desde meados de 2016, aguardando o seu lançamento, que deve acontecer no início de 2017, a bordo de um foguete Falcon 9, lançado nos Estados Unidos.

Como parte de seu maior envolvimento com os projetos universitários, a AEB estabeleceu um centro de missão responsável por coordenar projetos de cubesats em praticamente todas as etapas, como definições de missão, custos de lançamento, importação e exportação, etc., que funciona como um facilitador do acompanhamento desses programas.

Esta ação mais sistemática da AEB passou a ser estruturada num programa específico, denominado Sistema Espacial para Realização de Pesquisas e Experimentos com Nanossatélites (SERPENS), promovendo o desenvolvimento de missões de cubesat, de baixo custo, junto às universidades, gerando capacitação de recursos humanos. A capacitação, aliás, não envolve apenas os alunos, mas também docentes e técnicos.

Segundo Gurgel, o SERPENS é direcionado principalmente às universidades que têm cursos de Engenharia Aeroespacial, tendo por foco o desenvolvimento da missão completa e não de sistemas isolados. As universidades praticam essencialmente engenharia de sistemas, com montagem, integração, testes, operação, em programas que tem duração em torno de 18 meses. Universidades e institutos como a UnB, ITA, Universidade Federal do ABC (UFABC), Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), entre outras, tiveram ou têm projetos apoiados pela AEB. O SERPENS tem proporcionado a jovens estudantes um envolvimento completo em missões espaciais, estimulando a formação de recursos humanos altamente especializados. Alguns desses estudantes, tendo perfil de negócios, podem vir a empreender e abrir start-ups – de fato, algumas pequenas empresas espaciais já começam a surgir no Brasil. “A semente está plantada e é uma questão de tempo”, afirma Gurgel.

Ainda no âmbito educacional, Carlos Gurgel também destacou o projeto do Centro Vocacional Tecnológico Espacial (CVT Espacial), idealizado para “despertar o interesse da juventude pelas atividades espaciais”. A primeira unidade, situada em Natal (RN), já está praticamente finalizada, com sua inauguração prevista para o início de 2017. Fundamentalmente, o projeto prevê a oferta de infraestrutura e meios para o desenvolvimento de pequenas missões espaciais, como cansats (nanossatélites de dimensões similares a de uma lata de refrigerante) para estudantes dos ensinos fundamental e médio, contribuindo para a formação de recursos humanos.

Fonte: Tecnologia & Defesa n.º 147, dezembro de 2016.
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Jungmann: SGDC "vai acabar com o apartheid digital no Brasil”

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Ministro da Defesa ressalta importância do Satélite Geoestacionário para soberania do País

Raul Jungmann conheceu na terça-feira (17/01) o Centro de Operações Espaciais em Brasília, responsável pela operação do SGDC

17/01/2017 20:40h

“Esse satélite vai acabar com o apartheid digital no Brasil”. Foi essa a importância atribuída pelo Ministro da Defesa, Raul Jungmann, ao Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações (SGDC), ao conhecer nesta terça-feira (17/01) o Núcleo do Centro de Operações Espaciais (NUCOPE), que deve em breve se tornar o Centro de Operações Espaciais (COPE), em Brasília. A organização militar da Força Aérea Brasileira (FAB) será responsável pela operação e monitoramento do SGDC.

“Todo brasileiro, do Oiapoque ao Chuí, da Cabeça do Cachorro, lá no Amazonas, até Fernando de Noronha, vai dispor de banda larga. É o maior projeto de inclusão digital que nós já temos. Mas, além disso, esse satélite, que será controlado aqui pela FAB, na sua parte de comunicações governamentais e defesa, e pela Telebrás, na parte comercial, vai propiciar segurança das comunicações na área de defesa e na área governamental”, afirmou o ministro. “Ele vai representar um grande salto em termos de soberania, um enorme salto em termos de segurança de nossas instituições e vai incluir digitalmente todos os brasileiros”, complementou Raul Jungmann.

Em um briefing realizado no NUCOPE, o ministro, acompanhado do Comandante da Aeronáutica, Tenente-Brigadeiro do Ar Nivaldo Luiz Rossato, recebeu explicações sobre as capacidades e cenários de emprego do satélite, que tem previsão de lançamento para o dia 21 de março, a partir da base de Kourou, na Guiana Francesa, a bordo do foguete Ariane-5.

“Nessa data nós estaremos, não apenas lançando um satélite, mas realizando um sonho de soberania, de comunicação, de segurança, de defesa e de inclusão digital para todos os brasileiros”, ressaltou o ministro da Defesa.

Posicionado a uma distância de 35.786 quilômetros da superfície da Terra, o SGDC vai proporcionar três tipos de coberturas e terá uso dual (militar e civil), devendo atender às demandas do Programa Nacional de Banda Larga (PNBL) e prover a soberania em telecomunicações seguras para o Sistema de Comunicações Militares por Satélite (SISCOMIS).

O satélite vai operar nas chamadas bandas X e Ka. Em relação à primeira, trata-se de uma faixa de frequência destinada exclusivamente ao uso militar, correspondendo a 25% da capacidade total do satélite.

“Ele também vai permitir uma grande melhoria nas condições de fiscalizações de nossas fronteiras”, disse o ministro Jungmann .

Já a banda Ka terá capacidade de 54 Gbit/s e será usada para ampliar a oferta de banda larga pela Telebras. O satélite vai garantir conexão banda larga nos municípios mais distantes do País. Ele reforçará a rede terrestre da Telebrás, atualmente com 28 mil km de extensão, presente em todas as regiões brasileiras. O projeto é uma parceria entre os ministérios da Defesa (MD) e da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC).

“O SGDC é uma realidade que trará um grande aumento de capacidade de comunicações para o Brasil”, afirmou o Coronel Marcelo Vellozo Magalhães, comandante do NUCOPE, em sua explicação ao ministro da Defesa.

Recebimento

No início de dezembro do ano passado, o ministro da Defesa, Raul Jungmann, juntamente com o presidente da Telebras, Antonio Loss, recebeu o Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações (SGDC). O evento ocorreu em Cannes, no sul da França, onde fica a sede da Thales Alenia Space (TAS), empresa fornecedora do equipamento.

De acordo com o Ministério da Defesa, a vida útil do satélite está estimada em até 18 anos. A operação e o monitoramento do satélite serão executados de maneira compartilhada entre a Defesa e a Telebras. Segundo a Defesa, o valor de investimento é de R$ 2,1 bilhões, incluindo os custos com a infraestrutura terrestre.


Fonte: FAB.
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segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Ubatubasat lançado com sucesso

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Satélite feito por alunos do ensino fundamental é lançado com sucesso

16/01/2017

O primeiro satélite construído por alunos do ensino fundamental – o Ubatubasat – foi lançado em órbita nesta segunda-feira (16.01), às 9h49 – horário de Brasília a partir da Estação Espacial Internacional (ISS sigla em inglês). O satélite foi colocado em órbita, por meio do módulo Kibo JEM (Jaapanese Experimental Modulo) operando o deployer CubeSat JJOD.

Desenvolvido por alunos da Escola Municipal Tancredo de Almeida Neves (ETEC), na cidade de Ubatuba (SP), em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), todo o custo do lançamento do pequeno satélite foi arcado pela Agência Espacial Brasileira (AEB).

O Ubatubasat vai testar em órbita dois experimentos científicos. Um deles é o gravador chip com uma mensagem da escola Tancredo Neves que será transmitida em órbita. O outro é o experimento do Inpe que vai estudar as bolhas de plasmas da atmosfera, fenômeno que compromete a captação de sinais e antenas parabólicas localizadas na linha do Equador.

O pequeno satélite pesa 650 gramas, mede aproximadamente 9 centímetros de diâmetro e 13 cm de altura. O Ubatubasat será colocado em órbita baixa (cerca de 400 km de altitude), com duas cargas úteis formadas por dois experimentos de pesquisa. O pequeno satélite está na categoria de picosatélite com medida de até 1 kg. A expectativa de vida útil no espaço é de três a quatro meses. O equipamento tem em sua estrutura cinco placas, e células fotovoltaicas que envolvem o cilindro são responsáveis pela geração de energia para alimentar os componentes do Tancredo-1.

Os alunos e o coordenador do projeto Cândido Moura assistiram na sede do Inpe, em São José dos Campos (SP), a transmissão ao vivo do lançamento no canal da agência espacial do Japão (JAXA). De acordo com o coordenador do projeto toda a equipe envolvida no desenvolvimento do satélite está ansiosa para ver o picosatélite funcionando em órbita. “O Ubatubasat é uma ferramenta pedagógica que permitiu que centenas de alunos de nossa escola participassem de um projeto científico real. Depois de tanto trabalho estamos com a expectava em ver o satélite funcionando no espaço”, afirmou.

O professor Cândido esclareceu que a equipe vai acompanhar o satélite a partir do próximo dia 18 de janeiro quando todos estarão na cidade de Pardinho, no interior paulista, pois em Ubatuba não existe estação de rastreio e controle. O projeto também conta com diversos parceiros pelo mundo, como por exemplo, o professor Bob Twiggs da Morehead State University, que vai nos ajudar nesta tarefa.

Trajetória - O Ubatubasat foi lançado em 9 de dezembro rumo à ISS por um foguete da JAXA dentro de um adaptador TuPOD, de fabricação italiana.

Segundo o coordenador do projeto, o Tancredo-2, segunda versão do projeto já está em desenvolvimento. Trata-se de um cubesat com uma carga útil ótica para detectar raios do espaço. A expectativa é que a segunda versão entre em órbita em 2019.

O lançamento foi transmitido no canal do YouTube da JAXA no endereço: https://www.youtube.com/watch?v=R4xq_rj0QiQ

Para que as crianças se interessem pelas ciências espaciais, o Inpe disponibiliza uma dobradura para montar uma réplica de papel do Ubatubasat. Confira o modelo com as instruções para a montagem: http://www.inpe.br/noticias/arquivos/pdf/Modelo-Maquete-UbatubaSat-Tancredo-I_PaperMockUp-1.pdf

Fonte: AEB
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CLA tem novo diretor

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Centro de Lançamento de Alcântara (MA) tem nova direção

16/01/2017

O presidente da Agência Espacial Brasileira (AEB), José Raimundo Braga Coelho, participou da cerimônia de posse do novo diretor do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no Maranhão. O engenheiro Luciano Valentim Rechiuti assumiu a direção do Centro na última quinta-feira (12.1) em substituição ao Coronel Aviador Cláudio Olany Alencar de Oliveira, após três anos e cinco meses como vice-diretor.

A cerimônia, presidida pelo tenente brigadeiro do ar Antônio Carlos Egito do Amaral, diretor-geral do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), contou com a participação de todo o efetivo do CLA e do Grupamento de Apoio de Alcântara (GAP-AK). Estiveram presentes ao evento o deputado Federal Pedro Fernandes, representantes de órgãos e instituições públicas e privadas de âmbito federal, estadual e municipal, além dos comandantes locais das organizações militares das Forças Armadas e auxiliares.

A passagem de direção iniciou com um culto em ação de graças com todo o efetivo e convidados, realizado no auditório do Centro Técnico. Os convidados acompanharam o descerramento da fotografia, do agora ex-diretor do CLA, coronel Olany, no Salão Nobre.  Na sequência, foi realizada a Cerimônia Militar de Passagem de Direção. Em sua despedida o coronel Olany relembrou as conquistas realizadas em seu comando e agradeceu as autoridades que contribuíram para sua gestão. Ao término da solenidade a tropa desfilou em continência ao novo diretor do CLA.  Também assumiu como vice-diretor do Centro, o tenente coronel aviador Marco Antônio Carnevale Coelho.

“É com enorme expectativa que assumo a direção do CLA, uma organização essencial na manutenção do poderio aeroespacial do país. Em meio ao mais intenso processo de reestruturação da Força Aérea Brasileira (FAB), todos nós devemos dar prosseguimento às implementações propostas pelo Alto Comando, de forma a garantir maior eficiência na utilização dos recursos administrativos, logísticos e operacionais. A gestão iniciada hoje ganha enormemente com a ativação do Grupamento de Apoio de Alcântara (GAP-AK), pois possibilita o enfoque exclusivo na nossa atividade-fim de preparar, lançar e rastrear engenhos aeroespaciais”, concluiu o novo diretor.

O novo diretor do CLA, Coronel Luciano é engenheiro cartógrafo, formado pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Possui Mestrado em Sensoriamento Remoto, pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), MBA nas áreas de Gerenciamento de Projetos (FGV), Gestão de Processos em Ciência e Tecnologia (UFF) e Política e Defesa, pela Universidade Estácio de Sá. Foi promovido ao posto de Coronel em 25 de dezembro de 2013.

Fonte: CLA
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domingo, 15 de janeiro de 2017

"Zygmunt Bauman e a desigualdade como moto-perpétuo", artigo de José Monserrat Filho

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Zygmunt Bauman e a desigualdade como moto-perpétuo

José Monserrat Filho *

“Pois àquele que tem, lhe será dado e lhe será dado em abundância, mas ao que não tem, mesmo o que tem lhe será tirado.” Mateus 13.12

Falecido em 9 de janeiro, aos 91 anos, o pensador polonês Zygmunt Bauman, professor emérito das Universidades de Varsóvia e de Leeds (Reino Unido), abordou questões do cotidiano contemporâneo das pessoas do mundo inteiro, com visão abrangente, profunda, humanista e, ao mesmo tempo, acessível e comunicativa. Famoso por ter cunhado o conceito de “liquidez” que aplicou aos problemas e costumes da sociedade humana no nosso tempo, deixou análises vigorosas sobre as desigualdades sociais que têm se espalhado pelo planeta em ritmo avassalador.

Seu livro A riqueza de poucos beneficia todos nós? – publicado em inglês em 2013 e em português em 2015 (pela Zahar) – tem, como primeira de suas quatro epígrafes, a citação do Evangelho de São Mateus que considerei apropriado e justo colocar no início deste texto. A frase atesta que o flagelo da desigualdade “não chega a ser novidade” e reflete o espírito do volume, conciso mas contundente, no qual Bauman enfrenta, muitos séculos depois, “um debate apaixonado a partir de processos completamente novos, espetaculares, chocantes e reveladores”.

Logo na introdução, ele lembra: “Na era do iluminismo, durante a vida de Francis Bacon, Descartes ou mesmo Hegel, o padrão de vida em qualquer lugar da Terra nunca era mais que duas vezes superior àquele em vigor na região mais pobre. Hoje, o país mais rico, o Qatar, se vangloria de ter uma renda per capita 428 vezes maior que aquela do país mais pobre, o Zimbábue (a comparação é entre médias).” Nunca se viu tamanha desigualdade em toda a história humana.

Para Bauman, “a obstinada persistência da pobreza no planeta que vive os espasmos de um fundamentalismo do crescimento econômico é bastante para levar as pessoas atentas a fazer uma pausa e refletir sobre as perdas diretas, bem como sobre os efeitos colaterais dessa distribuição da riqueza”. Que, na realidade, é uma “não-distribuição da riqueza”. A seu ver, “o abismo crescente que separa os pobres e sem perspectiva de abastados, otimistas, autoconfiantes e exuberantes – abismo cuja profundidade já excede a capacidade de todos, exceto dos mais fortes e inescrupulosos arrivistas – é razão óbvia para ficarmos gravemente preocupados”.

A propósito, ele concorda com quem adverte que “a principal vítima da desigualdade será a democracia, já que a parafernália cada vez mais escassa, rara e inacessível da sobrevivência e da vida aceitável se torna objeto de rivalidades cruelmente sangrentas (e talvez de guerras) entre os bem providos e os necessitados e abandonados” (1). Para Bauman, essa assertiva desmonta “uma das justificativas morais básicas da economia livre de mercado, isto é, que a busca do lucro individual também fornece o melhor mecanismo para a busca do bem comum” (grifo do autor).

Ele está convencido de que “a riqueza acumulada no topo da sociedade, ostensivamente, não obteve qualquer ‘efeito de gotejamento’; nem tornou qualquer um de nós, em qualquer medida, mais rico; nem nos deixou mais seguros e otimistas quanto a nosso futuro e o de nossos filhos; nem tampouco, segundo qualquer parâmetro, mais felizes.”

Pelo contrário. “Pessoas que são ricas estão ficando mais ricas apenas porque são ricas. Pessoas que são pobres estão ficando mais pobres porque já são pobres”, observa Bauman e completa: “Hoje, a desigualdade continua a aprofundar-se pela ação de sua própria lógica e de seu momentum. Ela não carece de nenhum auxílio ou estímulo a partir de fora – nenhum incentivo, pressão ou choque. A desigualdade social parece agora estar mais perto de se transformar no primeiro moto-perpétuo da história – o qual os seres humanos, depois de inumeráveis tentativas fracassadas, afinal conseguiram inventar e pôr em movimento.”

Bauman acompanha o aumento da remuneração de um diretor executivo das maiores empresas americanas em comparação com o salário médio de um trabalhador de fábrica. Em 1960, o diretor executivo ganhava doze vezes mais que o trabalhador. Em 1974, 35 vezes mais. Em 1980, 42 vezes mais. Em 1990, 84 vezes mais. Em meados de 1990, 135 vezes mais. E, em 2000, já era 531 vezes mais. Não parece um moto-perpétuo em contínua aceleração?

Notável é a crítica de Bauman a um trecho do discurso de Margaret Thatcher (1925-2013) feito durante visita aos EUA, em 1970, já como alta funcionária do governo inglês, do qual  seria a primeira-ministra em 1979-90. Thatcher – que não tardaria a promover a desregulamentação do setor financeiro, a flexibilização do mercado de trabalho e a privatização de empresas estatais – disse então: “Uma das razões por que valorizamos indivíduos não é porque sejam todos iguais, mas porque são todos diferentes… Eu diria: permitamos que nossos filhos cresçam, alguns mais altos que outros, se tiverem neles a capacidade de fazê-lo. Pois devemos construir uma sociedade na qual cada cidadão possa desenvolver plenamente seu potencial, tanto para seu próprio benefício quanto para o da comunidade como um todo”.

Escreve Bauman a respeito: “Observe que a premissa crucial que leva a afirmação de Thatcher a parecer quase evidente em si mesma – a suposição de que a ‘comunidade como um todo’ seria adequadamente servida por todo cidadão dedicado a seu ‘próprio benefício’ – não foi explicada com clareza, sendo aqui aceita como ponto pacífico. Como observa Dorling (2), de maneira sarcástica, Thatcher pretende que ‘a capacidade potencial deva ser tratada como a altura’ (isto é, algo que está além do poder de interferência humana); assim como presume, mais uma vez sem provas, que diferentes indivíduos tenham por natureza capacidades diversificadas, em vez de possuir distintas capacidades a serem desenvolvidas, porque cabem a cada um diferentes condições sociais.”

“Em outras palavras” – esclarece Bauman –, “Thatcher toma como ponto pacífico, como algo evidente, que nossas diferentes capacidades, assim como nossas diferentes alturas, são determinadas por nascimento, ‘normalizando’ desse modo a implicação de que pouco ou quase nada há na capacidade humana para mudar esse veredicto do destino. Essa foi uma das razões pelas quais, no fim do século passado, ‘tornou-se aceita a estranha noção de que, ao agir egoisticamente, de algum modo, as pessoas beneficiam as outras’” (3).

No capítulo dedicado a Algumas grandes mentiras, Bauman nos oferece breve lista de “falsas crenças”, “talvez aquelas que, mais que todas as demais, têm responsabilidade pelo flagelo da desigualdade e seu crescimento em aparência incontrolável e metastático”:

“1. O crescimento econômico é a única maneira de lidar com os desafios e de algum modo resolver todos e quaisquer problemas que a coabitação humana necessariamente gere.

2. O aumento permanente do consumo, ou a rotatividade acelerada de novos objetos de consumo, talvez seja a única ou, pelo menos, a principal e mais efetiva maneira de satisfazer a busca humana pela felicidade.

3. A desigualdade entre os homens é natural; assim, ajustar as oportunidades de vida humana à sua inevitabilidade beneficia todos nós, enquanto adulterar seus preceitos prejudica todos.

4. A rivalidade (com seus dois lados, a eminência do notável e a exclusão/degradação do desprezível) é, simultaneamente, condição necessária e suficiente para a justiça social, assim como para a reprodução da ordem social.”

O final é inesperado e de uma franqueza sem ranhuras, com corajosa e dramática dose de otimismo: “Permita-me acrescentar que atribuir a si mesmo responsabilidade pelo mundo é um ato ostensivamente irracional. A decisão de assumi-la, complementada pela responsabilidade por essa decisão e suas consequências, contudo, é a última chance de salvar a lógica do mundo da cegueira que ele sofre e das suas consequências homicidas e suicidas.”

* Vice-Presidente da Associação Brasileira de Direito Aeronáutico e Espacial (SBDA), Diretor Honorário do Instituto Internacional de Direito Espacial, Membro Pleno da Academia Internacional de Astronáutica (IAA) e ex-Chefe da Assessoria Internacional do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e da Agência Espacial Brasileira (AEB). E-mail: jose.monserrat.filho@gmail.com.

Referências

1) Do artigo Especie humana ameaçada de extinção (Human species, endangered), de Michel Rocard, Dominique Bourg e Floran Augagner, publicado no jornal Le Monde, na edição de 3 de abril de 2011.
2) Dorling, Daniel, Injustice: Why Social Inequality Persists?, Polici Press, 2011, p. 197.
3) Id Ibid.
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quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

"Na corrida aeroespacial estamos na estaca zero", artigo de Roberto Amaral

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Reproduzimos abaixo artigo recebido hoje (12), de autoria de Roberto Amaral, dirigente do Partido Socialista Brasileiro (PSB), ex-ministro da Ciência e Tecnologia (janeiro de 2003 a 2004), e diretor-geral da binacional da Alcântara Cyclone Space (ACS) (2007 a 2011). O artigo não reflete a opinião do blog Panorama Espacial.

Na corrida aeroespacial estamos na estaca zero

Roberto Amaral

O programa espacial é exemplo de como as elites brasileiras, desde cedo, se demitiram da grandeza

Em meados de 2003, os ministros da Defesa (José Viegas Filho), das Relações Exteriores (Celso Amorim) e da Ciência e Tecnologia (Roberto Amaral) recomendaram à presidência da República a retirada, do Congresso Nacional, da mensagem com a qual FHC encaminhara o acordo por ele firmado com o governo dos EUA visando à cessão, pelo Brasil, do Centro de Lançamentos de veículos espaciais de Alcântara (CLA), no Maranhão. O acordo, demonstravam os ministros, contrariava os interesses nacionais e afetava nossa soberania.

Construído à base de dispositivos assimétricos, plenos de prepotência imperialista, eivado de desprezo à soberania brasileira, o acordo proibia peremptoriamente qualquer repasse de tecnologia, de que carece o Brasil, e impedia a cooperação tecnológica com outros países, de que tanto necessitamos para anular o atraso de hoje.

Enfim, o objetivo estratégico do governo dos EUA, ao qual se curvou FHC, era inviabilizar o programa espacial brasileiro, hoje agonizante, subordinando-o à órbita dos interesses estratégicos norte-americanos, que não dizem respeito aos nossos.

A alternativa brasileira de cooperação tecnológica se abriu com a possibilidade de acordo com o governo da República da Ucrânia, herdeira da tecnologia espacial da antiga União Soviética e disposta a colaborar com o Brasil.

Consultando os EUA sobre a parceria com o Brasil, as autoridades ucranianas receberam a insólita resposta de que os EUA não se opunham ao acordo Brasil-Ucrânia, mas continuavam considerando inconveniente nosso programa espacial. Esta é a premissa do acordo Brasil-EUA e das pressões e sabotagens contra a cooperação Brasil-Ucrânia, cujo fecho foi a inviabilização da Alcântara Cyclone Space.

O governo títere de Michel Temer, por razões que não explicou, retirou de pauta o acordo Brasil-EUA para negociações que não se fazem à luz do dia, e o tema pode retornar a qualquer momento ao Congresso sem discussão pública, sem audiência da comunidade científica, sem mesmo debate parlamentar.

Tudo é possível no atual governo e no atual estágio de nossa catástrofe política, mormente quando, ainda sem explicações políticas, técnicas ou estratégicas, o governo brasileiro (Decreto nº 8.494 de 24/6/2015) denunciou, unilateralmente, o acordo de cooperação firmado com a Ucrânia, que visava à produção conjunta e lançamento a partir da base de Alcântara do foguete Cyclone-4. E, assim, jogamos por terra a possibilidade de cooperação, que permite o salto tecnológico de que tanto carecemos.

O Veículo Lançador de Satélites (VLS), projeto da FAB desenvolvido pelo Centro Técnico Aeroespacial (CTA) da Aeronáutica, foi enterrado com os escombros do desastre de 2003, quando sua terceira tentativa de lançamento redundou na trágica perda de 21 técnicos brasileiros.

Estamos, hoje, como estávamos há décadas, pouco além da estaca zero, sem satélite, sem lançador e sem centro de lançamento, apesar de possuirmos o mais estratégico, econômico e seguro sítio para lançamentos de foguetes, o já referido município de Alcântara, no Maranhão, próximo à linha do Equador, onde os satélites entram em órbita.

Em Alcântara temos hoje as ruínas das obras civis da frustrada Alcântara Cyclone Space (ACS), fruto da finada cooperação Brasil-Ucrânia, e uma bela torre para lançamentos do VLS, um foguete que não existe.

O acordo firmado com os EUA, felizmente não homologado, é paradigmático da renúncia à soberania nacional. Vejamos alguns de seus muitos pontos inaceitáveis.

Por exemplo: admite a possibilidade de veto político unilateral dos EUA a lançamentos de foguetes de nosso Centro de Lançamento de Alcântara; proíbe o Brasil de cooperar (aceitar ingresso de equipamentos, tecnologias, mão-de-obra ou recursos financeiros) com países que não sejam membros do regime de Controle de Tecnologia de Mísseis – Missile Technology Control Regime (MTRC); proíbe o Brasil de utilizar recursos decorrentes dos lançamentos no desenvolvimento de seus próprios lançadores; determina o livre acesso, exclusivo dos servidores dos EUA, a qualquer tempo, ao Centro de Lançamento para inspecionar veículos, e assim por diante.

Independentemente do caráter de lesa-pátria desse acordo, ora suspenso, duas questões de fundo vêm à baila: (i) a dificuldade de nosso país acompanhar o processo tecnológico de seus parceiros, isto é, dos caminhantes de mesmo nível; e (ii) nossa quase inaptidão para desenvolver projetos estratégicos, aqueles que definem os grandes objetivos nacionais e condicionam, por isso, os planos e ações governamentais, ou seja, as táticas necessárias para atingir tais objetivos.

Atrasamo-nos no processo de desenvolvimento de nosso programa nuclear pacífico, sendo superados por países que caminhavam pari passu conosco nos anos 40/50 do século passado, e fomos superados pelos países tecnologicamente nossos contemporâneos nos primórdios da aventura espacial.

O caso exemplar é oferecido pela China, que hoje disputa o espaço com a Rússia e os EUA, enquanto nossos satélites (os CBERs – Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres), fabricados em cooperação com a indústria chinesa, são lançados por foguete chinês a partir de base chinesa.

No plano estratégico registramos, além dos atrasos nos programas espacial e nuclear, o gravíssimo atraso no plano cibernético, o espaço da guerra do terceiro milênio, como denunciou o general José Carlos dos Santos, então comandante do Centro de Defesa Cibernética do Exército, em palestra promovida pela  Câmara dos Deputados, em 2012.

Aliás, esses três setores, o espacial, o cibernético e o nuclear, foram eleitos como os de importância estratégica pelo decreto nº 6.703, de 15 de dezembro de 2008, que estabelece a ‘Estratégia Nacional de Defesa’ do Brasil.

Os percalços relativos ao desenvolvimento do Programa Espacial, particularmente no que dizem respeito à construção, interrompida, do sítio de lançamento da Alcântara Cyclone Space, são graves, mas não estão a constituir uma especificidade.

Os óbices resultam de questões estruturais, condizentes com os mecanismos de funcionamento do Estado brasileiro, com forte dose de distorção política e cultural, alienação que é uma das características seminais de nossas elites dirigentes, voluntariamente colonizadas.

Afeitos à dependência – científica, tecnológica, cultural, ideológica – nossos quadros dirigentes, com as exceções que fazem a regra, jamais se revelaram atraídos pelo pioneirismo ou pela inovação, jamais se sentiram conquistados pela autonomia e soberania do país, jamais se apresentaram estimulados pela necessidade de um projeto nacional de desenvolvimento. Muito menos de discuti-lo com a sociedade.

O pioneirismo que constrói as nações foi aqui substituído pela reprodução mecanicista dos modelos políticos, econômicos, culturais das metrópoles, pela importação de bens materiais e simbólicos, pela introjeção dos valores do colonizador, pela paixão pelo que vinha de fora, coisas e ideais, sotopondo o invento, a criação, a audácia e, principalmente, anulando a fé em si mesmo, a crença em sua própria capacidade, e, por consequência, na capacidade do povo-massa, o povo como ser coletivo.

A aspiração de nossas elites alienadas jamais foi o desafio da construção, nos trópicos, de uma civilização; ao contrário, forcejaram elas sempre por assimilar, como implante, primeiro os valores coloniais europeus, em seguida os valores norte-americanos; e assim, convencidas das nossas limitações como destino, e da mágica superioridade do ‘outro’, os outros povos (do Norte), das outras raças, do externo, sempre encararam o subdesenvolvimento como um determinismo.

Essas elites, europeizadas, auto-norte-americanizadas e auto-embranquecidas, jamais poderiam identificar-se com um povo mestiço, muito menos admitir sua capacidade criadora.

Pensar em projeto nacional com fundamento em nossas próprias forças, pensar na possibilidade de desenvolvimento econômico, foi sempre interditado. Nossas classes dirigentes desde cedo se demitiram da grandeza.

Para elas, nosso destino, de país agrário seria, inevitavelmente – cumprindo uma lei da divisão internacional do trabalho editada pelas grandes potências – o de subsidiar, com matérias-primas e alimentos, o progresso das sociedades industrializadas  – as quais, gratas, nos fornecem, para o conforto de nossas elites, os bens e o luxo produzidos com nossos insumos. Ora, por que manufaturá-los aqui?

E ainda há os que, mesmo em funções de Estado, não entendem a necessidade do esforço nacional visando à construção de nossos próprios satélites, de nossos próprios foguetes, como há os que não entendem a necessidade brasileira de desenvolver seu programa nuclear para fins civis.

Pois há, até, os que não compreendem que segurança e autonomia estejam no eixo de nossas políticas de defesa nacional.

Do conluio golpista que ora comanda o País, nada podemos esperar. O momento é de resistir ao desmonte do Estado brasileiro e preservar nossas conquistas, para, quando recuperarmos ao menos os elementos básicos do que definimos como democracia – e temos que recuperá-los! – , voltarmos a impor avanços às forças do atraso, que tanto apequenam este grande país.

Fonte: pensarBrasil, website de Roberto Amaral.
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SGDC: NUCOPE-P tem novo comando


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Integrar operações aéreas e espaciais é desafio de novo gestor

Localizado em Brasília, Centro de Operações Espaciais vai operar o Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas

12/01/2017 09:54h

Integrar as operações aéreas da Força Aérea Brasileira (FAB) com as operações espaciais. Esse será o principal desafio do Coronel Marcelo Vellozo Magalhães, que assumiu nesta quarta-feira (11/01) o Núcleo do Centro de Operações Espaciais Principal (NUCOPE-P), em Brasília (DF).

“Vamos fomentar um novo tipo de operação, que é a operação espacial. É uma novidade no âmbito do Comando da Aeronáutica e do Ministério da Defesa. Será uma nova doutrina de uma operação conjunta”, explica o oficial.

“O desafio será integrar a operação espacial com a aérea no aspecto operacional”, complementa o oficial que vai comandar a equipe de operação e monitoramento do Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas (SGDC).

O oficial da Aeronáutica, que realizou a preparação para atuar no monitoramento do satélite no Canadá, recebeu o cargo do Coronel Helcio Vieira Junior, que ficou à frente da unidade por quatro anos. A cerimônia foi realizada em Brasília (DF), no Comando-Geral de Operações Aéreas (COMGAR).

O equipamento foi entregue oficialmente ao governo brasileiro em novembro do ano passado. Com o lançamento, previsto para os próximos meses a partir da base de Kourou, na Guiana Francesa, a operação do equipamento será ininterrupta 24 horas por dia. De acordo com o Ministério da Defesa, a vida útil do satélite está estimada em 18 anos.

A operação e o monitoramento do satélite serão executados de maneira compartilhada entre a Defesa e a Telebras a partir do NUCOPE-P, que em breve passará a ser denominado Centro de Operações Espaciais. No espaço, localizado dentro do Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro (COMDABRA), trabalharão 96 profissionais.

Os militares são responsáveis pela operação da banda X (frequência destinada exclusivamente ao uso do Ministério da Defesa), que fornecerá o suporte operacional com link de comunicações para as Forças Armadas. A banda Ka (que será usada para ampliar a oferta de banda larga) será operada pelos técnicos da Telebras. A `pilotagem´ do equipamento será compartilhada.

Preparação de recursos humanos - O NUCOPE-P foi o embrião para o surgimento do Centro de Operações Espaciais. Desde a criação, há quatro anos, foi o responsável pela capacitação de quase cem profissionais que estarão envolvidos na operação do SGDC. Parte da equipe foi enviada para formação no Canadá, França e Chile. Nos últimos meses, como parte da preparação final de controle do satélite, a fornecedora do equipamento, Thales Alenia Space, ministrou cursos técnicos em Brasília.

A partir de fevereiro, o Centro de Operações Espaciais vai realizar uma simulação de operação do satélite 24 horas. Os profissionais trabalharão em três turnos. O processo, chamado de “Day in the life”, será supervisionado pela fabricante e faz parte da verificação final para habilitação dos profissionais.

Legado – Para o Coronel Helcio, que se manteve à frente do NUCOPE-P desde a criação, está tudo pronto para a operação da banda X do SGDC. “Entrego um time pronto e um centro preparado para operar satélite de órbita baixa”, afirmou o oficial, que além de deixar o núcleo se despede da FAB após 30 anos de serviço militar.

Porém, a marca mais importante que o militar acredita ter deixado é a sensibilização das autoridades sobre a necessidade de o Brasil utilizar ferramentas espaciais e as facilidades que este instrumento possibilita.

“Acredito que o mais importante foi alertar as autoridades que existem novas capacidades espaciais”, afirmou.

Ao time que ajudou a formar e capacitar, o Coronel Helcio deixa uma mensagem de incentivo e otimismo sobre a atividade para a qual foram preparados.

“Eles têm que ser muito orgulhosos de integrar uma elite reduzida no mundo e ainda mais no Brasil que trabalha com tecnologia avançada. Ao mesmo tempo, que tenham humildade para reconhecer a importância do trabalho em fazer um País melhor, com acesso à telemedicina e teleducação, por exemplo", finalizou o militar.

Fonte: Agência Força Aérea, por Ten Jussara Peccini.
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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

"Política externa de empresas multinacionais?", artigo de José Monserrat Filho

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Política externa de empresas multinacionais?

José Monserrat Filho *

“Na guerra ou na paz, o setor privado se transformou no setor público.” John Kenneth Galbraith, A economia das fraudes inocentes – Verdades para o nosso tempo, São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 56. (1)

O novo Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas, o português Antônio Guterres, falando aos funcionários da ONU, em Nova York, no dia 3 de janeiro, “reclamou das nações mais ricas por sua negligência na hora de assumir suas responsabilidades em questões globais”, tema que gera muitos debates no mundo inteiro. Para Guterres, “vivemos num mundo em que se multiplicam os conflitos que se inter-relacionam com este novo fenômeno do terrorismo global. Conflitos nos quais se despreza o Direito Humanitário Internacional e se cometem graves violações dos direitos humanos, e nem sequer se respeitam os direitos dos refugiados.” (2)

Como as mais poderosas empresas do mundo devem reagir diante desta desordem geral? “Para poderem navegar pelas complexidades geopolíticas do mundo moderno, as empresas precisam 'privatizar' a política externa, internalizando muitos elementos tradicionalmente empregados na arte de governar”, recomenda a revista Harvard Business Review/Brasil, edição de setembro de 2016, no artigo de John Chipman “Por que sua empresa precisa de uma política externa – As multinacionais devem ficar atentas à crescente volatilidade geopolítica”. (3)

A revista vale-se do prestígio da Harvard University. Fundada em 1636 com campus em Cambridge, Massachusetts, essa é a mais antiga instituição de ensino superior dos EUA e goza de fama mundial. Em 2012, seu orçamento de 30 bilhões de dólares foi o maior de todas as universidades do mundo. Sua visão dos problemas tende a refletir a opinião do grande empresariado americano – não raro polêmica. (4) Chipman afirma, por exemplo, que, ante “a velocidade dos acontecimentos e as lentas reações dos EUA”, “o apetite para a intervenção tanto por parte dos decisores políticos dos EUA como do público está em declínio” e que, “como resultado, o mundo tende a ficar menos estável – esta é a primeira razão de as multinacionais se concentrarem novamente no risco geopolítico”. Mas será mesmo que a instabilidade atual do mundo se deve, ainda que em parte, à inapetência do intervencionismo americano? A invasão ilegal do Iraque não ocorreu em 2003?

O cenário global de hoje é bem mais complicado. Em artigo publicado no jornal Valor, de 6 de janeiro, Cristian Klein cita o jornalista e escritor Carlos Amorim, que lançou pela Ed. Record uma trilogia sobre o crime organizado. No terceiro volume, Assalto ao Poder, sobre a infiltração do crime em instituições do Estado e do mercado, Amorim enfatiza: “O crime organizado começa na favela e termina em Wall Street.” Klein procura explicar: “O crime organizado precisa de um mecanismo de autopreservação que exige atuação política. Não falo de bandido em cima de laje de favela, mas do crime infiltrado nas instituições públicas, na democracia, na economia formal.”

Para dar uma ideia da dimensão do fenômeno, Klein apresenta dados impressionantes: “A atuação das organizações criminosas em escala global movimenta, anualmente, de acordo com a ONU, entre US$ 3 trilhões e US$ 4 trilhões. É maior do que o PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil. Não seria possível movimentar tamanha quantidade de dinheiro sem o sistema bancário, de troca de capitais. É um leque amplo de envolvimentos, uma operação criminosa transnacional que envolve gente de todos os escalões sociais, e governos.” (5)

David Harvey, geógrafo e antropólogo britânico, professor emérito da Universidade da Cidade de Nova York e ex-professor das Universidades Johns Hopkins, nos EUA, e Oxford, no Reino Unido, considera, por sua vez, que “é estupidez tentar entender o mundo do capital sem levar em conta os cartéis de drogas, os traficantes de armas e as várias máfias e outras formas criminosas de organização que desempenham papel significativo no mercado mundial”. (6) Poderosas corporações financeiras, portanto, não podem não participar ativamente de tais atividades.

Em 1990, Jean Ziegler, então membro do Parlamento suíço, lançou o livro A Suíça Lava Mais Branco. Em 2015, 25 anos depois, entrevistado por Jamil Chade, do jornal O Estado de S. Paulo – lembra o Jornal GGN de 1º de março de 2015 –, Ziegler insiste na mesma acusação: “A Suíça é o principal local de lavagem de dinheiro do nosso planeta, o local de reciclagem dos lucros da morte”. Agora, com o vazamento das 100 mil contas secretas do banco HSBC na Suíça – notícia definida como “terremoto mundial” –, ele adverte: “É apenas a ponta do iceberg”. E esclarece: “Na maioria dos países, quem regula os bancos é um órgão estatal. Na Suíça, é uma empresa semi privada paga pelos bancos. Uma agência que regula bancos bancada pelos bancos.” E mais: o governo suíço “sabia que o dinheiro vinha das drogas colombianas, da máfia, do terrorismo e da lavagem de dinheiro. Mas até hoje nenhum processo foi aberto”. (7)

As relações entre empresas transnacionais e Estados tiveram sua fase mais crítica nas décadas de 1960-1970. Os princípios da soberania sobre os recursos naturais e da autodeterminação dos povos, sobretudo com a liberdade de escolha do regime político, da organização social e do modelo econômico – foram consagrados na Carta das Nações Unidas, de 1945, e nas propostas aprovadas pela Assembleia Geral nos documentos "Declaração de Estabelecimento de uma Nova Ordem Econômica Mundial" e "Plano de Ação para o Estabelecimento de uma Nova Ordem Econômica Mundial" e "Carta de Direitos e Deveres dos Estados". Meta principal: diminuir a disparidade de poder nas relações econômicas entre países desenvolvidos e em desenvolvimento. Essas posições do chamado “terceiro mundo” chocaram-se e ainda se chocam abertamente com a autonomia e a garantia de investimentos exigida pelas firmas transnacionais. (8) As Nações Unidas até hoje não lograram regulamentar a conduta dessas empresas, apesar dos vários projetos propostos. O sonho de consumo das transnacionais parece ser o de se tornarem sujeitos do Direito Internacional, como os Estados.

O Acordo que Regula as Atividades dos Estados na Lua e outros Corpos Celestes (Acordo da Lua) – preparado durante os anos 70 e aprovado por unanimidade pela Assembleia Geral da ONU, em 1979 – embora conte hoje com apenas 16 ratificações e quatro assinaturas – foi fortemente influenciado pelos países em desenvolvimento. Isso fica particularmente claro em seu Artigo 4º (“Especial atenção deve ser dada aos interesses das gerações presentes e futuras” e “à necessidade de promover níveis de vida mais elevados e melhores condições de progresso e desenvolvimento econômico e social”) e em seu Artigo 11, que define a Lua (e os outros corpos celestes) e seus recursos naturais como “patrimônio comum da humanidade” e cria um regime internacional para a explotação dos recursos naturais lunares baseada na participação equitativa de todos os Estados interessados – desenvolvidos e em desenvolvimento – nos benefícios auferidos de tais recursos. (9) As empresas transnacionais rechaçam categoricamente esse princípio.

Voltando ao artigo de Chipman, ele sustenta: “Hoje, as empresas assumem o controle direto de sua imagem e reputação internacional. Poucas desejam ser vistas principalmente como o braço comercial de uma nação em particular”. E cita um caso que caiu muito mal na opinião pública mundial: em 1954, a United Fruit Company foi cúmplice do golpe de Estado na Guatemala conduzido pelo governo dos EUA, que derrubou o presidente Jacobo Arbens Guzmán, democraticamente eleito. Arbens expropriara terras não utilizadas da empresa americana, dentro de um programa legal de reforma agrária, amplamente apoiado no país. 29 anos depois, no Chile, em 1973, o golpe chefiado pelo General Augusto Pinochet depôs o presidente Salvador Allende, também democraticamente eleito. Allende nacionalizara corporações americanas, inclusive a do cobre. O golpe mobilizou greves de caminhoneiros, tropas de açambarcadores de alimentos e produtos essenciais, e movimentos de protestos, com decisiva ajuda de Washington e financiamento de empresas transnacionais, que, graças ao regime militar, tiveram de volta suas propriedades. (10)

Por isso, com certeza, Chipman lembra: “Nos últimos anos do século 20, muitas empresas decidiram recuar para parecer politicamente neutras.”

Mas o próprio Chipman reconhece, logo depois: “A realidade do século 21 é que as empresas não podem escapar da política nem continuar a fingir que são neutras. A resposta é abraçar a necessidade de se engajar política e diplomaticamente.” E acrescenta: “Assim como as empresas conduzem regularmente a diligência jurídica, a financeira e outras tantas, devem se comprometer também com a diligência geopolítica.” Em vários níveis e esferas. As empresas devem ir do geral para o particular: “avaliar o risco transnacional”; “prestar atenção às tendências políticas regionais”; “avaliar o risco local”; e “ter cautela com o risco doméstico e com o risco ao redor”. Para Chipman, esse trabalho todo “requer uma equipe bastante sofisticada de analistas internos para avaliar continuamente o risco geopolítico, além de especialistas em assuntos internacionais”. Isso é vital para as empresas poderem desenvolver sua própria política externa.

“O primeiro princípio da diplomacia corporativa: as empresas devem criar a sua própria abordagem para governos estrangeiros em vez de manipular as políticas de seu país de origem ou ser influenciadas por elas”, aconselha Chipman. Ele frisa que “às vezes, as organizações (empresas) precisam se separar da política externa de seu país de origem”, mas acha que esse desenraizamento tem limites: “as empresas não devem se tornar tão apátridas” a ponto de sentir que não devem pagar impostos em lugar algum. E arremata: “Deixar de quitar um imposto devido sobre o lucro denota por si só ausência de boas práticas de política externa: pode prejudicar a reputação de uma empresa e levar a uma ação forte do governo.” Em países emergentes, alerta Chipman, “a política interna é particularmente volátil”; por isso, “o equilíbrio interno de poder entre atores-chave nas esferas econômicas e políticas deve ser continuamente monitorado”; e “o melhor seguro contra o risco político continua a ser um profundo e amplo conjunto de relações que reforce a licença da política implícita da empresa para operar de forma eficaz”, ou seja, concentrar riquezas em escala crescente.

Concluindo, Chipman salienta que “os processos de avaliação geopolítica das empresas devem ser abrangentes e sua política externa corporativa, astuta”. Daí que, cada vez mais, os investidores vão dar destaque às empresas transnacionais que primam pela aptidão e habilidade em política externa e pela capacidade de agir diante de choques geopolíticos.

O que seria uma “política externa astuta”? “Astuta” é a forma adjetiva de “Astúcia”, que, segundo o Dicionário Aurélio (versão 2004), quer dizer “habilidade de enganar, lábia, solércia, manha, artimanha, ardil”, além de “malícia e sagacidade”.

Vice-Presidente da Associação Brasileira de Direito Aeronáutico e Espacial (SBDA), Diretor Honorário do Instituto Internacional de Direito Espacial, Membro Pleno da Academia Internacional de Astronáutica (IAA) e ex-Chefe da Assessoria Internacional do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e da Agência Espacial Brasileira (AEB). E-mail: jose.monserrat.filho@gmail.com.

Referências

1) John Kenneth Galbraith (1908-2006), economista, filósofo e escritor norte-americano, conhecido por suas posições keynesianas, escreveu mais de 40 livros, muitos deles traduzidos para o português.
2) Antônio Guterres (1949-), diplomata, ex-diretor (2005-2015) da ACNUR, agência das Nações Unidas responsável pelas questões relativas aos refugiados. Em 2016, foi eleito Secretário-Geral da ONU, aclamado por todos os 193 Estados-Membros da organização.
3) Ver http://hbrbr.uol.com.br/por-que-sua-empresa-precisa-de-uma-politica-externa/.
4) Ver https://pt.wikipedia.org/wiki/Universidade_Harvard.
5) Ver http://www.valor.com.br/politica/4827968/crime-organizado-comeca-na-favela-e-termina-em-wall-street.
6) David Harvey (1935-), formado na Universidade de Cambridge, publicou Social Justice and the City e The Limits to Capital (sobre o pensamento econômico de Marx, com posições heterodoxas em relação a alguns aspectos da teoria marxista tradicional, como a teoria das crises).
7) Jean Ziegler (1934-), ex-professor de Sociologia das Universidades de Genebra e Sorbone, em Paris, é consultor do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas e autor de 25 livros publicados em várias línguas, inclusive em português.
8) Resolução 3.201, de 1º de Maio de 1974, Resolução 3.202, de 1º de Maio de 1974) e Resolução 3.281, de 12 de Dezembro de 1974. Ver https://pt.wikipedia.org/wiki/Nova_Ordem_ Econ%C3%B4mica_Internacional. Seitenfus, Ricardo, Relações Internacionais, Barueri, SP: Manole, 2004. p. 131.
9) Ver texto completo do Acordo da Lua em www.sbda.org.br.
10) Seitenfus, Ricardo, Relações Internacionais, Barueri, SP: Manole, 2004. p. 131.
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segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

"Visiona se prepara para o futuro"

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Visiona se prepara para o futuro

André M. Mileski

Criada em maio de 2012, a Visiona Tecnologia Espacial, joint-venture entre a Embraer e a estatal de telecomunicações Telebras, está prestes a concluir o projeto que lhe deu origem, o Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas (SGDC), programado para lançamento ao espaço no início de 2017.

Eduardo Bonini, engenheiro de carreira na Embraer e presidente da Visiona desde fevereiro de 2014, recebeu a reportagem de Tecnologia & Defesa para uma conversa sobre o momento da companhia e projetos para o futuro, como novas missões de satélites e serviços de imagens.

SGDC

Dotado de cargas úteis para atender as demandas em comunicações do Ministério da Defesa e do Plano Nacional de Banda Larga (PNBL), o SGDC já foi concluído por seu fabricante e tem lançamento para o 1º trimestre de 2017. No momento, a Visiona trabalha nos preparativos da campanha de lançamento, que será realizada a partir de Kourou, na Guiana Francesa - de fato, no dia da entrevista para T&D, Bonini receberia uma equipe da Arianespace, responsável pelo lançamento, para tratar de aspectos logísticos da campanha.

Nesse meio tempo, a empresa já visualiza futuras unidades do SGDC. Segundo Bonini, o Programa Nacional de Atividades Espaciais (PNAE) para o período de 2012 – 2021 considera três satélites geoestacionários de comunicações, mas decisão sobre a contratação de novos satélites, porém, é sempre do cliente, frisou. “Quem define a necessidade é o nosso cliente final. Qual é a demanda, quando satura a demanda”, algo a ser definido de acordo com o plano de negócios da Telebras. Levando-se em conta um ciclo médio de cerca de três anos para a definição da missão e sua colocação em órbita, Bonini tem a expectativa de que o processo de discussões com o cliente seja iniciado em breve, já em 2017.

O programa SGDC proporcionou a capacitação de uma equipe de Engenharia, com idade média de 29 anos, formada por um mix de engenheiros experientes, egressos principalmente do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), e por jovens recém-formados em universidades brasileiras e capacitados pela Thales Alenia Space, fabricante do satélite, na França. Com a proximidade da operação do SGDC, esse contingente estará disponível para novos projetos.

Novas missões de satélites

No aguardo de decisões do governo e consequentes viabilizações orçamentárias, a equipe de Engenharia da Visiona tem trabalhado na concepção de novas missões de satélites, com enfoque em coleta de dados e observação terrestre, em iniciativas inseridas no PNAE, no Programa Estratégico de Sistemas Espaciais (PESE), do Ministério da Defesa, e noutras demandas governamentais.

A empresa planeja ter uma plataforma multiuso para satélites de pequeno porte, que traria ganhos de escala, e que poderia ser utilizada para missões como de observação, coleta de dados, entre outras. “Nossa ideia é, em parceria, adquirir tecnologia para fabricar algo localmente.”

Dentre as missões consideradas estão a do SCD-HIDRO, na qual a empresa trabalha desde 2013, visando atender o Sistema Brasileiro de Coleta de Dados Ambientais (SBCDA), do INPE, e o TERRASat, anteriormente conhecido como Incrasat. O TERRASat envolve o desenvolvimento de um satélite de resolução bastante alta, submétrica (0,5 metro), para atender as demandas por imagens do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). O plano inicial era ter um contrato assinado em meados de 2016, mas por conta da crise política e instabilidade financeira, houve atraso e necessidade de se atrair outros clientes governamentais para a viabilização da missão. Segundo o executivo, há no momento um grupo de trabalho com representantes de vários ministérios e da Agência Espacial Brasileira (AEB) atuando na concepção do projeto.

Questionado sobre o segmento de meteorologia, talvez uma das maiores dependências e vulnerabilidades em espaço do Brasil hoje, Eduardo Bonini disse que a Visiona já foi estimulada a desenvolver uma solução de satélite para atender essa necessidade, tendo concebido a ideia de um satélite com órbita de 20 mil km, dotado de um sensor radar meteorológico que poderia ser desenvolvido e construído no País pela BRADAR, empresa do grupo Embraer especializada em tecnologia de radares.

Em matéria de tecnologias críticas, parte da equipe de Engenharia da Visiona trabalha com discrição no desenvolvimento de capacidades em sistemas de controle de atitude e órbita, conhecidos pela sigla AOCS (em inglês, Attitude and Orbit Control System), campo em que o Brasil está bastante atrasado. De acordo com Bonini, há alguns anos houve a decisão da empresa de investir parte dos seus resultados no desenvolvimento de uma solução local, criada com base na tecnologia de um parceiro internacional. O desenvolvimento do software, crítico para o controle da posição e movimentos de satélites, encontra-se em fase avançada, com testes de bancada e mesmo no espaço já no horizonte. Existe a possibilidade de ter um software embarcado no cubesat SERPENS-3, para testes, em 2018. “Trabalhamos em uma solução que já existe e está funcionando, minimizando riscos.”

Serviços de imagens

Além das missões de satélites, a Visiona tem também explorado outros mercados, como o de serviços de imagens de satélites (ver reportagem em T&D n.º 143). “Investimos na área de serviços para manter competências”, afirma Bonini.

Para desenvolver a nova área, a empresa firmou acordos de distribuição de imagens com alguns dos principais operadores de satélites de observação da Terra, como a Airbus Defence and Space, a norte-americana DigitalGlobe, a japonesa Restec, a sul-coreana SI Imaging Services e a canadense UrtheCast, o que lhe permite oferecer um amplo leque de imagens, óticas e radar, em diferentes resoluções, inclusive submétricas, para os mercados governamental e privado.

Em agosto de 2016, a empresa realizou um projeto piloto durante os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, oferecendo às Forças Armadas e de segurança o acesso a dados gerados por uma rede de onze satélites. Ainda no segmento governamental, outro programa de interesse é o Amazônia SAR, executado pelo Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (CENSIPAM), para monitoramento do desmatamento em determinadas regiões da Amazônia. O projeto, que atraiu interesse dos principais fornecedores de imagens radar do mundo, teve sua concorrência paralisada recentemente, mas espera-se que seja retomado. “A Visiona está disposta a participar e apresentar uma proposta”, diz.

Passa também nos planos da Visiona a instalação de uma antena terrena para captação da telemetria, ampliando suas capacidades. Estima-se o mercado local, incluindo clientes públicos e privados, movimente receitas de cerca de R$100 milhões por ano. Conforme Bonini, desde o início de 2016, quando a Visiona começou a comercializar imagens, a empresa já obteve receitas de R$8 milhões, havendo muito espaço para crescimento.

Projetos e interesses da Visiona

SGDC: com o lançamento do primeiro satélite de comunicações previsto para março de 2017, a Visiona tem a expectativa de que novos satélites serão contratados no futuro.

Projeto SCD-HIDRO: satélites de pequeno porte para atender o Sistema Brasileiro de Coleta de Dados Ambientais (SBCDA), operado pelo INPE, com coleta de dados ambientais e hidrometeorológicos para monitoramento do volume de água e do balanço hidrológico de reservatórios.

Projeto Carponis: concebida no âmbito do PESE, consiste em sistema de observação da Terra com sensor ótico de alta resolução espacial e possível inclusão de banda infravermelha. Órbita otimizada para observação dezenas de interesse do Brasil.

Projeto Lessônia/SAR: também integrante do PESE, missão de satélite radar (SAR) para observação da Terra, com uso e monitoramento e fiscalização de desmatamentos, análise de interferometria para movimentação de superfície e segurança de barragens, e monitoramento ambiental da costa, entre outras.

Projeto TERRASat: satélite ótico submétrico para atender a demanda do INCRA e de outros órgãos governamentais e ministérios.

Sistema de controle de atitude (AOCS): desenvolvimento de software para controle de posição e movimento de futuros satélites brasileiros.

Projeto Amazônia SAR: sob responsabilidade do CENSIPAM, projeto compreende a futura instalação no Brasil de estação de recepção de dados gerados por satélites SAR para monitoramento da região amazônica.

Meteorologia: atendendo a estímulos do governo, a Visiona concebeu o conceito de um satélite com radar meteorológico com órbita a 20 mil km de altitude, que poderia ter forte participação da indústria nacional.

Fonte: Tecnologia & Defesa n.º 147, dezembro de 2016.
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sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Nova edição do "INPE Informa"

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O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) disponibilizou esta semana a oitava edição de seu boletim institucional, o "INPE Informa".

O destaque deste número é uma extensa entrevista com Leila Fonseca, coordenadora da Coordenação de Observação da Terra (OBT) do Instituto, responsável pelo processamento e análise de imagens captadas por satélites de observação, e monitoramento do desmatamento na região amazônica, dentre outras atividades. Dentre os vários assuntos abordados, destaques para os programas de monitoramento da Amazônia como o PRODES e DETER, perspectivas para o processamento de dados de novos satélites, formação de recursos humanos, apoio do Fundo Amazônia, entre outros.

Clique aqui para acessar o boletim.
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